Minha vida, mãe de Autista

Lembro da expectativa na sala de parto, as mãos geladas esperando aquele chorinho de bebê para aquietar o coração e saber que está tudo bem, confirmando os exames de pré natal. Aquele foi o melhor som que ouvi na minha vida, a melhor experiência que tive foi sentir aquele bebê se aconchegar no meu rosto se acalmando com a minha voz dizendo: Oi filho tá tudo bem, mamãe está aqui! Seja bem vindo meu amor. Deus te abençoe, Deus te abençoe… Eu te amo
Os anos se passaram…
De Repente, me vi sentindo aquele mesmo medo, esperando pelo “chorinho”, o “mamaaaaaãe” dito diariamente deixou de existir, as danças alegres se tornaram tão raras quanto os olhos nos olhos, os diálogos e as brincadeiras naturais de crianças curiosas se tornaram praticamente inexistentes.
Nenhum exame de pré natal detectou, nenhum exame neurológico viu, nenhum exame genético constatou, nenhum exame de sangue alterou…
Durante a gestação aprendi sobre amamentação, sobre curar umbigo, higiene pessoal de um bebezinho, sobre primeiros socorros, sobre educação, rotina, desenvolvimento típico. Mas não estudei nada a respeito de desenvolvimento atípico, não me preparei para o imprevisto…
De um jeito bem doloroso descobri que, independente da nossa vontade e esforços, imprevistos acontecem.
Durante a gestação não estudei nada sobre preconceito, nem imaginei que uma criança pudesse ser rejeitada, por motivo nenhum.
De um jeito ainda mais doloroso descobri que, infelizmente o preconceito é real, a negação é real, a incapacidade de amar, em alguns, é real.
Durante a gestação sonhei em estar cercada de amor incondicional, tanto eu quanto o meu filho.
De um jeito quase enlouquecedor descobri que o silêncio pode ser ensurdecedor, e que nem sempre encontramos amor aonde deveria existir.
Durante a gestação estudei sobre planejamento da rotina de um bebê mas não li nada sobre replanejar sonhos.
De um jeito quase inevitável aprendi sobre resiliência.
E foi aprendendo a replanejar sonhos, a fazer escolhas alinhadas com a nossa saúde emocional, entendendo que respirar é importante, que selecionar é fundamental, sabendo que tudo faz parte de um processo e que o dia seguinte pode ser bem melhor, chegamos aqui, exatamente 3 anos após o diagnóstico.
Hoje já estudei sobre TEA, alimentação diferenciada, sobre sinapses, alterações mitocondriais, sobre ABA, PECS, leis de inclusão, bombardeio sensorial, células tronco, direitos dos autista, sobre transtorno do processamento sensorial, hiposensibilidade e hipersensibilidade, sobre objetos de interesse, sobre crises nervosas, estereotipias, crises convulsivas, sobre adaptações curriculares, adaptações familiares, adaptações ambientais, estudei sobre estratégias de linguagem e alterações de rotina, sobre pedagogia, psicopedagogia, intervenções fonoaudiológicas, terapia ocupacional, intervenções medicamentosas… Não há um só dia nos últimos 3 anos, que eu não tenha estudado alguma coisa sobre o assunto: Autismo!
Hoje, consigo “ler” meu filho pelo jeito dele respirar, ele tem se desenvolvido de uma forma muito corajosa e consistente, alguns dias mais, outros nem tanto, mas com uma persistência ímpar. Faço um exercício diário de observação e descoberta das suas particularidades. E como é delicioso ver as coisas pela óptica literal e simples dele! Sempre me mostrando que não precisamos de muito para sermos felizes, me lembrando que o amor incondicional é sim, real.
 Hoje é ele quem me acalma, da mesma forma que o acalmei quando nasceu, aconchega o rosto dele no meu, através do olhar e daquele sorriso mais lindo do mundo diz: Mamãe, tá tudo bem. Estou aqui, eu te amo!
Sei que ainda temos um caminho a percorrer, mas temos um ao outro, temos uma linda, estruturada e recíproca relação de amor infinito, de verdade absoluta, cumplicidade real, amizade, respeito, zelo, admiração…
E, sem dúvida, temos Deus cuidando de nós dois nos detalhes. Sei  que cada “Não” que ouvimos, foi só parte do trajeto para chegarmos até aqui e termos a força que temos para prosseguir.

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9 comentários

  1. Que bom que voltou a escrever. Estava com saudades da sua escrita simples e ao mesmo tempo tão impactante.
    Me vejo nas suas palavras, mesmo o Felipe não tendo autismo, mas toda criança traz consigo desafios que nós país vamos juntos descobrindo e vencendo.
    Muito obrigado por compartilhar suas experiências.
    Você e o Enzo são vencedores
    Amo vocês ❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

  2. Que alegria ter você de volta!
    Obrigada por compartilhar seus sentimentos e dividir conosco um pouquinho dessa sua força.

  3. Denise Moreira

    Você me emociona com suas palavras! Tenho certeza que Enzo é muito feliz por ter uma mãe como você!

  4. Alexandra lizardo

    Obrigado por dividir conosco suas aflições sua experiência. E principalmente suas vitorias e do nosso Príncipe. Não deixe de escrever você ajuda muitas familias com seu amor .amo vc minha irmã do coraçao

  5. “Muitas vezes ouvi de medicos ou de pessoas proximas que nao deveria cuidar dela. Diziam que era loucura abandonar minha vida por ela, que Carola nao e minha filha. Mas e, sim. E minha responsabilidade desde o dia em que a adotei, e farei isso ate quando Deus quiser.”

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