Era um dia como outro qualquer, nossa rotina estava dentro do previsto: acordamos, tomamos café, terapia, almoço e escola.
Fui buscá-lo na escola, como sempre cheguei mais cedo, me posicionei no mesmo lugar, esperei, tive a mesma reação de todos os dias quando ele saiu, na saída em direção ao portão foi tudo normal, sem maiores alterações. Até passarmos pelo portão de saída…
Percebi que as mãozinhas dele começaram a suar além do normal, e ele ficou um pouco desorganizado, como se estivesse “sem lugar”. Continuei andando em direção ao carro, de mãos dadas com ele dizendo que tinha pão quentinho, havia acabado de comprar na padaria, tentando mudar o foco.
Ele continuou andando no meu ritmo, apesar de andarmos calmamente começou a ficar ofegante, mas ainda estava controlável. Fui conversando e tentando fazê-lo pensar em outra coisa, seja lá o que fosse que ele estivesse pensando, sem dúvida, estava causando desordem na cabecinha dele.
Chegamos ao carro, o sentei na cadeirinha, apertei os cinto, dei o pão e ele me devolveu de forma reativa. Guardei o pão na sacola e disse “entendi que você não quer agora”.
Entrei no carro, arranquei e no primeiro quarteirão, ele estava completamente ofegante, se debatia, berrava, chorava, emitia ecolalia falando coisas desconexas, batia a cabeça na cadeirinha, balançava as mãozinhas…
Eu pensei que ele fosse convulsionar
Fiquei muito assustada, com um medo que não sei nem descrever, e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi: Chegou a minha vez de enfrentar as crises.
Já tinha lido e estudado muito a respeito, mas nada se compara com vivenciar. Pensei que fosse ficar apenas na teoria e jamais teria a “aula prática”, principalmente “sem instrutor”.
Apesar da bomba de sentimentos dentro de mim explodindo sem parar, avisei com voz bem calma: ” Filho, mamãe vai dar seta e vai fazer um barulho tuc tuc tuc”
Nessa altura do campeonato fiquei com medo de até a minha respiração piorar a situação.
E continuei:
“Mamãe vai parar o carro, vou descer e te ajudar”
Isso tudo, apesar das minhas pernas baterem de nervoso, com a voz mais calma e confiante que eu fui capaz de fazer.
“Mamãe vai descer e vou abrir a sua porta”
Ele continuava com os berros cada vez mais altos, as batidas na cabeça cada vez mais fortes e algumas vezes ele perdia o ar por causa do choro compulsivo.
Abri a porta e no mesmo tom disse:
“Estou vendo que você está muito nervoso e quer comunicar alguma coisa que agora não consigo entender, mas mamãe está aqui para te ajudar. Vou encostar em você para tirar seu cinto de segurança e assim conseguirá respirar melhor.
Mamãe está aqui, vai ficar tudo bem.”
Tirei o cinto calmamente, apesar dos berros, de se debater, das frases desconexas e das mãos balançando. E continuei:
“Puxa, acho que seria bom se andássemos um pouco para ver as flores, o cheiro das flores acalma” (não sei de onde tirei isso, mas foi o que vi mais próximo que poderia chamar sua atenção)
Tirei ele do carro e exatamente ao lado tinha um muro com flores trepadeiras
De alguma forma, aquilo deu uma pequena acalmada e aproveitei para tentar uma interação física, de uma forma que ele se sentisse acolhido.
Me abaixei de frente para ele, e perguntei com a voz trêmula e baixa, tentando manter o equilíbrio:
“Sei que foi difícil para você se sentir assim tão desorganizado e nervoso. Mas já acabou. Estou aqui para te ajudar.
Você quer um abraço?”
Ele me abraçou, exausto. Senti sua respiração normalizar aos poucos, os berros viraram resquícios de choro, eu sentei com ele no chão, ninando. Nem sei por quanto tempo ficamos ali, sentados no meio da calçada, com as portas do carro abertas. Minhas lágrimas brotavam e eu quase não conseguia controlar meus sentimentos, foi quando ele já completamente calmo, aceitou entrar no carro depois de eu dizer calmamente, com a voz baixinha, quase um sussurro:
” Vamos embora para nossa casa, seus brinquedos estão te esperando. Vamos levantar e entrar novamente no carro”
O medo tomava conta de cada milímetro do meu corpo, que parecia ter tomado uma surra ou sido atropelado por um Caminhão.
O coloquei no carro, andei 1 Km e ele dormiu profundamente. Aí começou a minha crise de choro, foi a minha vez do choro compulsivo, engolindo os berros que estavam presos na minha garganta. Quando cheguei em casa, estacionei o carro, abri a porta, coloquei a cabeça para fora e vomitei de nervoso.
Pedi ajuda para tirá-lo dormindo do carro, eu mal conseguia me manter de pé, o colocamos no sofá e assim ele ficou por 3 horas, eu me ajoelhei ao lado e pedi a Deus que fosse a primeira e última vez que eu passasse por esse tipo de situação, que Ele me capacitasse a prever os “gatilhos”, que me fizesse atenta aos detalhes.
Só fui saber o que desencadeou essa crise no dia seguinte.
Quando fui buscá-lo novamente na escola (praticamente fiquei lá de plantão na secretaria a tarde toda) e ao sairmos ele olhou fixo para mim, fechou o portãozinho de segurança com força, me deu a mão e continuou andando.
Me lembrei que no dia anterior eu não havia fechado o bendito portãozinho porque vinha um pai com seu filho logo atrás de nós, e eu quis ser gentil.
Mas como todos os dias eu falava “vamos fechar o portãozinho para os bebês não fugirem”, ele ficou desorganizado, quando arranquei o carro que ele percebeu que realmente íamos embora sem fechar o portãozinho, desencadeou a crise.
Eu não imaginei que algo tão insignificante para mim iria causar, no meu filho, essa avalanche.
Só quem vive sabe!
Nenhuma birra de crianças típicas chega perto do horror da crise de uma criança autista.
Quando encontrar com a mãe de um Autista, lembre-se que naquele dia ela pode ter vivido isso algumas vezes, se você se sente cansado ao fim do dia, pense que ela pode estar completamente exausta.
Tenha compaixão, empatia, gentileza, acolhimento, respeito e amor.
De repente autista Por Michelle Carvalho, escritora blog De Repente Autista, desenvolve conteúdos sobre autismo, palestrante, mãe de um autista e pesquisadora incessante
Lindo texto! VC é uma mãe singular e no minimo sensacional. bj
Obrigada pelo carinho 💙
Mi não deve e ter sido facil, posso tentar imaginar como foi, mas que sorte do Enzo ter você como a Mãe! 🙏🏻 Um beijo pra vcs dois que moram no nosso coração!
Obrigada pelo carinho 💙
Olá Michele, tudo bem? Você é de BH? Queria tanto conversar com você…também sou daqui..
Oi Thaís, manda mensagem inbox no Facebook De Repente Autista, podemos conversar sim. Beijos
Chorei lendo seu relato. N te conheço, mas vc parece ser uma pessoa muito iluminada. Que Deus te abençoe imensamente.
Obrigada pelo carinho Silvia ❤️
Que texto lindo, me emocionei muito. Ainda não passei por uma crise, foi muito bom ler seu texto. É incrível como pequenas coisas pra nós, fazem total diferença pra eles.