Quando me tornei mãe, descobri um movimento social materno de uma estranha “competição da evolução”:
Meu filho andou com 10 meses, e o seu?
Meu filho amamentou até 2 anos, você não se esforçou?
Meu filho come de tudoooo, o seu gosta de jiló?
Meu filho fez o desfralde praticamente sozinho, o seu ainda usa fralda noturna?
Chupeta??? Claro que não. Seu filho usa?
Quando me tornei mãe atípica é como se eu ganhasse uma licença de não participar dessa competição. E muitas vezes nem era por empatia, e sim por achar que meu filho não era mais parâmetro de comparação, sem dúvida achavam que uma criança autista estava aquém da criança típica, mesmo com habilidades incríveis. Essa licença invisível e velada eu chamei de libertação.
Uma mãe, assim como eu, que passou 4 ANOS, 5 MESES e 26 DIAS para ensinar ao filho que xixi se faz no vaso, se liberta de saber quando ele irá aprender que o quadrado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos catetos.
Nos libertamos de expectativas comuns, como por exemplo, se importar com os pontos de um boletim escolar.
Quando eu era adolescente e entregava o boletim para o meu pai, nós dois sabiamos que aqueles números não mensuravam a minha capacidade, as minhas notas ruins, abaixo da média, eram recebidas e encaradas com acolhimento, com empatia, com palavras de encorajamento, com uma parceria ímpar de estudarmos juntos, e as notas altas eram comemoradas e igualmente encorajadas a uma melhora para chegar ao máximo.
Segundo o professor Cipriano Carlos Luckesi, citado por LIBÂNEO (1991; p196) “a avaliação é uma apreciação qualitativa sobre dados relevantes do processo de ensino e aprendizagem que auxilia o professor a tomar decisões sobre o seu trabalho.”
E foi sempre na base qualitativa que me preocupei e luto dentro da inclusão. Uma qualidade e adequação de ensino, associado ao planejamento escolar e adaptações necessárias para dar condições iguais de aprendizado.
Notas? Nunca nem pensei nelas.
Quanto vale aquela prova ou trabalho? Nem perguntei.
Mas questionei sobre como o meu filho estava absorvendo o conteúdo, falei com a professora no primeiro dia de aula que a minha maior expectativa em relação a ela era que acreditasse na capacidade do meu filho e o ensinasse de uma forma que ele conseguisse aprender.
Se tiraria 5 ou 7 é tão secundário que nem mereceu pauta mas reuniões.
Esses dias li um texto de um pedagogo e gestor escolar, Rafael Soares Mansur, sobre a ansiedade dos pais em saber como seriam distribuídas as notas e avaliações no meio da Pandemia, os levando a uma reflexão profunda do que realmente significam aqueles números/notas.
O seu filho tira 100 em matemática, mas é capaz de perceber numéricamente que o próprio lanche é suficiente para alimentar 3 pessoas e o amigo ao lado só tinha 1/4 de pão?
Seu filho tira 98 em História mas usa de um racismo estrutural com expressões tão comuns, mas que ferem ao outro pela sua semântica, como “denegrir”?
Com a liberdade de uma mãe atípica, sigo me importando com o aprendizado consistente, não só da parte acadêmica, mas o aprendizado humano, aquele que coloca em prática, que pensa no macro, e com a sensibilidade que também a maternidade atípica me presenteou.
Notas? Talvez faça parte da realidade dos pais que ainda estão na tal “competição da evolução”. Não posso opinar, não me enquadro, estou livre!
De repente autista Por Michelle Carvalho, escritora blog De Repente Autista, desenvolve conteúdos sobre autismo, palestrante, mãe de um autista e pesquisadora incessante
Texto maravilhoso! Parabéns Michelle, você nos enche de orgulho!Estaremos sempre do seu lado.Te amo!
Excelente. É essa a pegada. Tem um livro maravilhoso que recomendo muito: “Na vida 10, na escola 0”. Uma pesquisa sobre o aprendizado de matemática na escola e o uso dos mesmos conceitos no cotidiano extra escolar. Fiquei feliz e me sinto honrado por ter me citado.
Abraços
Aí Michele, que texto necessário, obrigada querida!