Capacitismo!


A definição dada pela Academia Brasileira de Letras ao capacitismo é:

1. Discriminação e preconceito contra pessoas com deficiência.

2. Prática que consiste em conferir a pessoas com deficiência tratamento desigual (desfavorável ou exageradamente favorável), baseando-se na crença equivocada de que elas são menos aptas às tarefas da vida comum.

Sem dúvida,  alguma vez na vida, eu e você fomos capacitistas, seja no pensar,  falar ou agir.

Fomos ensinados pelo:

“Não olha, ele tem problema “

“Coitadinho, ele é  especial “

“Não fique perto dela, dizem que retardados podem ser agressivos”

“Você precisa fazer uma boa ação e sentar ao lado do coleguinha especial “

O capacitismo estrutural atesta, constantemente, sobre a incapacidade das pessoas com deficiência ao invés de supor potencialidades.

Não é incomum que as pessoas perguntem as coisas à mim ao invés de perguntar ao meu filho, mesmo ele tendo condições de escolher e expressar por si. Perguntas do tipo:

“Será que ele quer água?”

“Ele prefere esse ou aquele salgadinho?”

“Será que ele quer brincar?”

Já soube de uma pessoa com deficiência visual, adulta, que foi ao banco resolver coisas na conta bancária onde era o titular, a esposa coincidentemente foi junto e o gerente da agência conversou o tempo todo com a esposa, ignorando completamente a presença do maior interessado no assunto, pressupondo que ele, por ser pessoa com deficiência visual, não era apto a dizer por si.

A infantilização também é uma atitude capacitista muito comum. Conversam com a pessoa com deficiência de uma forma incompatível com a idade do ouvinte.

Certa vez, estávamos num evento, uma pessoa sentou na nossa mesa de frente para nós,  Enzo brincava distraído com um aplicativo de laboratório de cores, a pessoa queria chama-lo e ao invés de simplesmente chamar, começou a bater palminhas e cantar:

” Enzinho, tã nã nã! Enzinho, tã nã nã!”

Ele pausou o aplicativo,  olhou para a pessoa, olhou para mim como quem pergunta:

É sério isso?

Abaixou os olhos, ligou o aplicativo e saiu de perto. Obviamente estava incompatível com a idade dele e com sua capacidade cognitiva de um pré adolescente.

O capacitismo nem sempre está ligado à má intenção,  mas as boas intenções equivocadas também ferem.

Ajudar uma pessoa porque você duvida da sua capacidade,  relacionando com sua deficiência, dói sim. Rouba a chance de independências,  poda talentos, reduz potências.

Capacitismo em crianças é algo muito grave, porque a criança (qualquer uma), não tem maturidade para discernir seus reais valores e acredita no adulto quando esse diz que ela é eternamente dependente, incapaz de escolher por si, de falar por si, até de sentir por si.

Ser quem é com ressalvas de muletas emocionais, sociais e físicas permanentes! Esse é o selo que muitos colocam nas pessoas com deficiência.

Que possamos enxergar a pessoa antes da deficiência,  o talento antes da dificuldade,  a potência antes da limitação. Suponhamos habilidades.

Que sejamos ponte de possibilidades, terrenos férteis de amor e respeito. 

A inclusão começa dentro da gente,  por uma mudança de postura e mente, assim refletirá em ações genuínas. 

Ser instrumento de adaptações e equidades não passa pela “pena”, e sim por entender habilidades e desenvolver estrategicamente possibilidades. São soluções compartilhadas de pessoas dispostas, sejam elas com ou sem deficiência.

Sejamos capacitadores e não capacitistas! 

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